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icone da página Forte do Leme em Angra dos Reis: história e ruínas

Forte do Leme em Angra dos Reis: história e ruínas

17/07/2026

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Há lugares que permanecem porque foram cuidadosamente preservados.

Outros permanecem apesar de quase tudo.

As ruínas do Forte do Leme, na Ponta Leste de Angra dos Reis, pertencem a essa segunda categoria.

Suas paredes já não protegem soldados. Os trilhos não transportam munição. Os túneis não conduzem homens entre o antigo quartel e os poços de artilharia. Os canhões continuam voltados para a baía, mas o horizonte que um dia deveriam vigiar já não lhes apresenta o mesmo mundo.

Quando percorri o local com minha câmera, não encontrei apenas uma construção militar abandonada.

Encontrei matéria atravessada pelo tempo.

Metal oxidado. Alvenaria exposta. Trilhos interrompidos. Passagens escuras. Vegetação avançando sobre estruturas concebidas para resistir.

Ao redor de tudo, a Mata Atlântica e a paisagem marítima de Angra dos Reis continuavam exercendo sua presença, aparentemente indiferentes às antigas ambições humanas de controle.

Foi esse encontro entre história, ruína, paisagem e memória que procurei registrar.

Não apenas o que o Forte do Leme foi.

Mas aquilo em que ele se transformou.


Onde ficam as ruínas do Forte do Leme?

O Forte do Leme, também conhecido como Forte da Ponta do Leme ou Canhões do Forte do Leme, está localizado na região da Ponta Leste, em Angra dos Reis, no litoral sul do estado do Rio de Janeiro.

O conjunto encontra-se próximo ao Terminal Petrolífero da Baía da Ilha Grande, o TEBIG, e ao monumento dedicado aos mortos do encouraçado Aquidabã.

Sua localização ajuda a compreender sua existência.

Fortificações costeiras não são implantadas ao acaso. A relação com o território faz parte de sua própria arquitetura. O mar não funciona apenas como paisagem: ele representa rota, acesso, fronteira, circulação e possibilidade de ameaça.

Antes que radares, satélites e sistemas contemporâneos de vigilância transformassem profundamente a defesa do litoral, era necessário ocupar fisicamente pontos capazes de observar a aproximação de embarcações e proteger áreas consideradas estratégicas.

Construir um forte significava, portanto, converter a geografia em instrumento militar.

O relevo, a abertura da baía, a visibilidade do horizonte e a possibilidade de instalar peças de artilharia passavam a integrar um desenho defensivo muito maior do que o edifício isolado.

Por isso, quando observo o Forte do Leme, não vejo apenas as ruínas de uma construção.

Vejo uma arquitetura criada para dialogar com o território.

O forte existe porque a baía existe.

Os canhões existem porque existe um horizonte.

Os túneis existem porque era necessário transportar pessoas e munições sob alguma forma de proteção.

A paisagem não está ao redor da fortificação como simples moldura.

Ela é parte da razão pela qual a fortificação foi construída.


Uma fortificação construída para vigiar o horizonte

A construção do Forte do Leme é atribuída ao engenheiro militar Capitão Rosalvo Mariano da Silva.

As informações históricas disponíveis publicamente, entretanto, deixam algumas questões em aberto, inclusive sobre a iniciativa institucional original da fortificação.

Essa dúvida merece ser preservada.

Existe uma tentação constante de transformar o passado em uma sequência perfeitamente organizada de acontecimentos. Datas, nomes, responsáveis e funções são alinhados como se a história tivesse chegado até nós pronta para ser publicada.

Mas o passado raramente se oferece dessa maneira.

Muitas vezes, o que permanece são fragmentos.

Uma inscrição no metal.

Uma referência em uma publicação antiga.

Uma estrutura sobrevivente.

Uma memória transmitida entre moradores.

Um nome repetido em fontes diferentes.

Uma interpretação que, com o passar do tempo, começa a ser tratada como certeza.

Como fotógrafo, aprendi que aquilo que fica fora do enquadramento também importa.

Ao pesquisar a história de um lugar, acredito que preciso aplicar a mesma prudência.

Há o que as estruturas mostram.

Há o que os documentos registram.

Há aquilo que diferentes fontes interpretam de maneiras distintas.

E há o que ainda precisa ser investigado.

O Forte do Leme é uma construção física, mas sua história também é formada por lacunas documentais.

Reconhecê-las não enfraquece o patrimônio.

Ao contrário.

Impede que uma narrativa bonita seja construída sobre certezas artificiais.


A anatomia do Forte do Leme

O conjunto é formado por dois poços circulares destinados às peças de artilharia. Esses poços são ligados por túneis às instalações do antigo quartel.

No chão, trilhos eram utilizados para transportar as pesadas granadas do paiol até os canhões.

A fortificação reunia, portanto, diferentes espaços e funções: alojamento, circulação protegida, armazenamento de munição, deslocamento de cargas e operação das peças de defesa costeira.

Hoje, ao percorrer as ruínas, esses elementos aparecem separados pelo abandono.

Encontro um trilho que parece não conduzir a lugar algum.

Entro em um túnel cuja função pode não ser imediatamente compreendida por quem desconhece o sistema original.

Observo uma parede sem cobertura, um vão ocupado pela vegetação ou uma passagem parcialmente escondida.

Mas, quando esses fragmentos são vistos como partes de uma mesma estrutura, algo de sua lógica original reaparece.

Os trilhos falam de peso.

Os túneis falam de proteção e circulação.

Os poços circulares falam do movimento e do alcance dos canhões.

O quartel fala da presença humana necessária para manter aquela estrutura em funcionamento.

A arquitetura do forte não foi criada para ser contemplada.

Ela foi criada para operar.

Cada passagem respondia a uma necessidade.

Cada forma estava subordinada à disciplina, à defesa e à possibilidade de conflito.

É justamente por isso que sua condição atual produz tamanho impacto sobre mim.

O lugar concebido para ser funcional tornou-se contemplativo.

A estrutura construída para responder rapidamente a uma ameaça agora exige lentidão de quem a observa.

Foto Forte do Leme em Angra dos Reis: história e ruínas - Imagem 0

Anatomia do Forte do Leme

Os canhões do Forte do Leme

Os elementos mais reconhecíveis do conjunto são os dois grandes canhões posicionados nos poços circulares.

As peças possuem calibre de 234 milímetros e foram fabricadas em 1901 pela empresa britânica Armstrong Whitworth, conforme as inscrições preservadas nos próprios armamentos e as informações históricas disponíveis sobre o local.

A presença dessas peças em Angra dos Reis insere o Forte do Leme em uma rede histórica muito mais ampla.

O metal que hoje permanece oxidando em meio à vegetação nasceu de uma indústria moderna, mecanizada e internacional.

Sua fabricação envolveu engenharia pesada, conhecimento balístico, comércio e estratégias militares que atravessavam fronteiras.

Essa contradição visual me interessa profundamente.

O canhão representa a confiança de uma época na técnica, na força e na capacidade humana de controlar o território.

A ferrugem mostra que nenhuma tecnologia escapa completamente à passagem do tempo.

A máquina permanece.

Mas já não domina.

A vegetação não precisa destruí-la de uma vez.

Basta continuar.

Foto Forte do Leme em Angra dos Reis: história e ruínas - Imagem 1

Canhão Armstrong Whitworth - calibre 234 milímetros

Os canhões vieram do Riachuelo ou do Aquidabã?

A origem dessas peças é um dos pontos mais interessantes e controversos da história do Forte do Leme.

Uma interpretação associa os canhões ao encouraçado Riachuelo.

Outra sustenta que poderiam ter pertencido ao Aquidabã, navio que explodiu e afundou na baía de Jacuacanga em 1906.

As próprias fontes históricas utilizadas para apresentar o patrimônio reconhecem a existência dessas diferentes versões.

Para mim, esconder essa divergência seria um erro.

É tentador escolher a versão mais dramática.

A relação com o Aquidabã produz uma narrativa quase cinematográfica: canhões retirados de um navio destruído na mesma região teriam sido instalados em terra e voltados novamente para o mar.

É uma imagem poderosa.

Mas uma história não se torna verdadeira apenas porque é bonita.

Entre o impacto narrativo e a honestidade histórica, prefiro a dúvida documentada.

Os canhões existem diante de nós.

Sua fabricação pode ser identificada.

Sua origem naval exata, porém, permanece aberta à investigação.

E isso também faz parte da história.

A dúvida também pode ser patrimônio.

Ela nos recorda que a história não é uma coleção imóvel de certezas. É um campo de pesquisa construído a partir das evidências disponíveis, das interpretações possíveis e da disposição de reconhecer aquilo que ainda não sabemos.


Da arquitetura militar à ruína

Uma fortificação é uma arquitetura de permanência.

Muros espessos, estruturas pesadas, passagens protegidas e posições estratégicas são concebidos para resistir.

A ruína começa quando essa expectativa de permanência encontra o tempo.

Mas uma ruína não é apenas uma construção quebrada.

Ela é um edifício que perdeu sua função original e adquiriu novas possibilidades de significado.

No Forte do Leme, a arquitetura militar já não organiza soldados, munições e operações defensivas.

No entanto, continua organizando o meu olhar.

Os túneis conduzem minha visão para a escuridão.

Os vãos enquadram a vegetação.

As paredes incompletas desenham limites entre aquilo que foi construído e aquilo que voltou a crescer.

Os canhões criam linhas que levam os olhos em direção ao mar.

Aquilo que antes funcionava como estratégia passa a funcionar como imagem.

Essa transformação atravessa profundamente a história da arte.

Artistas de diferentes períodos voltaram seu olhar para ruínas porque elas tornam visível algo que normalmente não conseguimos enxergar: o tempo.

O tempo não possui uma forma própria.

Não posso fotografá-lo diretamente.

Mas posso perceber seus efeitos em uma parede descascada, em uma raiz atravessando uma estrutura, em uma superfície corroída ou em uma passagem que perdeu sua função.

A ruína é o tempo transformado em matéria.

Foto Forte do Leme em Angra dos Reis: história e ruínas - Imagem 2

Ruínas do Quartel que abrigava os militares

 

Entre o pitoresco e o sublime

Na tradição artística da paisagem, algumas imagens são construídas para transmitir equilíbrio, serenidade e harmonia.

Outras procuram provocar a consciência da nossa pequenez diante de algo maior, mais antigo ou impossível de controlar.

O Forte do Leme reúne esses dois movimentos.

Em determinados enquadramentos, a vegetação envolvendo os muros produz uma cena quase pitoresca.

Há texturas, sombras, camadas e um aparente equilíbrio entre a construção abandonada e o crescimento da mata.

Mas, quando permaneço diante da cena por mais tempo, essa serenidade começa a rachar.

Aqueles canhões foram construídos para a guerra.

Aqueles túneis existiam para proteger pessoas e munições.

Aquela paisagem, que hoje parece silenciosa, foi interpretada como um território que precisava ser defendido.

A beleza não apaga essa origem.

Ela convive com ela.

É isso que torna o lugar mais complexo do que um simples cenário de ruínas bonitas.

A contemplação precisa carregar consciência.

Fotografar o Forte do Leme não significa transformar seu passado militar em decoração.

Significa observar como diferentes tempos passaram a ocupar o mesmo espaço.

O tempo da defesa.

O tempo da presença militar.

O tempo do abandono.

O tempo da vegetação.

O tempo da memória.

E, finalmente, o tempo da fotografia.


Quando a natureza ocupa a arquitetura

Existe uma leitura apressada segundo a qual a natureza estaria vencendo a construção.

A imagem é sedutora: raízes avançando sobre muros, plantas ocupando frestas, folhas cobrindo caminhos e umidade transformando superfícies.

Mas, enquanto fotografava, comecei a pensar que talvez não exista uma guerra entre natureza e arquitetura.

O que existe é uma diferença de ritmo.

A construção humana nasce de um gesto concentrado.

É projetada, erguida e colocada em funcionamento dentro de um determinado período.

A natureza trabalha de outra forma.

Ela não precisa de inauguração.

Não avança em linha reta.

Age pela repetição.

Chuva após chuva.

Estação após estação.

Raiz após raiz.

No Forte do Leme, a vegetação não aparece apenas como moldura.

Ela participa ativamente da imagem.

Em alguns pontos, esconde.

Em outros, revela.

Cria sombras, separa planos, suaviza contornos e, simultaneamente, evidencia a fragilidade das estruturas.

Essa presença transforma a ruína em um organismo visual.

A arquitetura já não está isolada do território.

Passou a ser absorvida por ele.

O forte, construído para dominar a paisagem, tornou-se parte da paisagem.

Foto Forte do Leme em Angra dos Reis: história e ruínas - Imagem 3

Ruínas absorvidas pela natureza

O mar continua diante dos canhões

Os canhões ainda apontam para a baía.

Talvez esse seja o elemento mais inquietante do conjunto.

Tudo ao redor deles mudou.

Mudaram as tecnologias militares.

Mudaram os meios de transporte.

Mudaram as formas de vigilância.

Mudaram as relações políticas, econômicas e estratégicas com o litoral.

Mas o gesto físico das peças continua preservado.

Elas apontam.

Não disparam.

A diferença entre essas duas ações contém grande parte da força poética do lugar.

Apontar significa conservar uma direção.

Disparar significaria cumprir uma função.

Sem função, resta o gesto.

E esse gesto reorganiza minha percepção do horizonte.

Quando olho para o mar acompanhando a direção do canhão, não vejo apenas uma paisagem natural.

Vejo uma paisagem historicamente construída.

O mar passa a carregar a memória da defesa, do medo, da circulação naval e das disputas territoriais.

A história não está apenas nas pedras ou no metal.

Ela também está na maneira como aprendemos a olhar o espaço.

Foto Forte do Leme em Angra dos Reis: história e ruínas - Imagem 4

Entre mar e canhões

Fotografar uma ruína não é apenas documentá-la

A fotografia possui uma relação particular com aquilo que está desaparecendo.

Toda imagem preserva algo que, no instante seguinte, já terá mudado.

Na fotografia de ruínas, essa condição se torna ainda mais evidente.

Uma parede pode cair.

Uma inscrição pode se perder.

A ferrugem pode avançar.

A vegetação pode esconder uma estrutura.

Uma futura restauração pode modificar para sempre a aparência que encontrei.

Fotografar o Forte do Leme é, portanto, produzir um documento.

Mas não apenas isso.

Nenhuma fotografia é inteiramente neutra.

Escolher o enquadramento significa decidir o que entra e o que permanece fora.

Aproximar-me de uma textura significa retirar aquele elemento de seu contexto mais amplo.

Usar a luz para destacar um canhão, uma parede ou um corredor significa atribuir importância visual a esse elemento.

A fotografia documenta e interpreta ao mesmo tempo.

Ela preserva uma aparência.

Mas também constrói uma leitura.

Durante este trabalho, não procurei apenas provar que o Forte do Leme existe.

Procurei compreender como ele existe agora.

Como a luz entra nos túneis.

Como as plantas tocam o concreto.

Como o metal reage à umidade.

Como o mar aparece através de uma abertura.

Como uma estrutura concebida para a guerra pode, décadas depois, produzir silêncio.


A fotografia como arqueologia do olhar

A arqueologia trabalha com vestígios.

A fotografia também.

Nem sempre o vestígio precisa ser um objeto encontrado sob a terra.

Pode ser uma marca de uso.

Uma rachadura.

Um trilho interrompido.

Uma inscrição gravada.

Um mecanismo corroído.

O desenho deixado por uma estrutura que já não existe por completo.

Fotografar esses elementos é recolher indícios.

Uma sequência de imagens pode reconstruir relações que o abandono tornou menos evidentes.

Uma fotografia mostra o poço de artilharia.

Outra revela o túnel.

Uma terceira aproxima o olhar dos trilhos.

Outra situa o conjunto diante da baía.

Separadas, elas são fragmentos.

Organizadas em um ensaio, transformam-se em narrativa.

É por isso que a ordem das imagens importa.

Meu álbum não funciona apenas como uma coleção de fotografias feitas no mesmo lugar.

Ele procura reproduzir uma descoberta gradual.

Primeiro, a paisagem.

Depois, a aproximação.

Em seguida, as estruturas.

Então, os detalhes.

Por fim, o retorno ao espaço aberto.

Quem observa não recebe todas as respostas de uma vez.

É convidado a percorrer visualmente o lugar.

A fotografia deixa de funcionar apenas como uma janela isolada e passa a construir um percurso.

Foto Forte do Leme em Angra dos Reis: história e ruínas - Imagem 5

Fotografia como arqueologia do olhar


O álbum Forte do Leme

O álbum Forte do Leme — Ruínas, História e Paisagem em Angra dos Reis reúne o ensaio fotográfico completo que produzi no local.

As imagens atravessam a arquitetura, os túneis, os trilhos, os canhões, a vegetação e a relação da fortificação com a paisagem costeira.

Não procurei apenas apresentar diferentes ângulos.

Meu objetivo foi construir uma experiência de observação.

A sequência permite perceber como o lugar se modifica conforme avançamos.

A vista ampla cede espaço aos detalhes.

O impacto monumental dos canhões convive com sinais discretos de deterioração.

A mata aparece ora como fundo, ora como personagem principal.

Conhecer o álbum Forte do Leme

O documentário sobre as ruínas do Forte do Leme

Também desenvolvi esse trabalho em vídeo.

No documentário Ruínas do Forte do Leme — História e Beleza em Angra dos Reis, Missilene e eu percorremos o local, registrando caminhos, túneis, estruturas militares, canhões e detalhes que ajudam a compreender fisicamente o espaço.

O vídeo acrescenta elementos que a fotografia fixa não consegue oferecer da mesma maneira.

Deslocamento.

Som ambiente.

Duração.

A percepção de atravessar o lugar.

A fotografia interrompe o tempo.

O vídeo permite que ele continue correndo.

Juntos, os dois formatos constroem leituras complementares.

O álbum convida a permanecer diante de cada imagem.

O documentário conduz pelo percurso.

Assistir ao documentário do Forte do Leme

A criação do parque no Forte do Leme

Em julho de 2025, o município de Angra dos Reis oficializou a criação de uma área protegida relacionada ao Forte do Leme.

Na comunicação dirigida ao público, o projeto aparece como Parque Municipal Forte do Leme. No texto formal do decreto municipal, a denominação utilizada é Parque Urbano Forte do Leme.

A iniciativa reconhece o valor histórico, cultural, ambiental e paisagístico da área e estabelece a intenção de associar preservação, educação ambiental, pesquisa, lazer e turismo de contemplação.

A criação legal de um parque, entretanto, não significa que toda a infraestrutura necessária à visitação esteja automaticamente implantada.

Existem etapas de regularização, cessão de áreas, planejamento, segurança, sinalização, gestão e definição das regras de uso.

Essa diferença é importante.

Criar juridicamente um parque significa reconhecer o valor de um território e estabelecer uma intenção pública de preservação.

Implantá-lo plenamente exige transformar essa intenção em estrutura, cuidado e continuidade.

O Forte do Leme encontra-se, portanto, em um momento particularmente interessante de sua trajetória.

Deixou de ser percebido apenas como uma ruína isolada e passou a integrar formalmente uma discussão mais ampla sobre patrimônio, turismo e conservação.

Mas o futuro desse projeto dependerá da continuidade das ações de preservação.

Minha fotografia registra também esse intervalo.

O espaço entre o abandono e a possibilidade de preservação.


Preservar não significa apagar o tempo

Toda intervenção em uma ruína levanta perguntas difíceis.

O que deve ser reconstruído?

O que precisa permanecer como está?

Até que ponto restaurar?

Como garantir segurança sem transformar o lugar em uma reprodução artificial de si mesmo?

Como oferecer acesso público sem destruir justamente aquilo que torna o espaço significativo?

Preservar não deveria significar devolver ao Forte do Leme uma aparência imaginária de novo.

Uma restauração excessiva poderia apagar as marcas que testemunham sua trajetória.

A ferrugem, as rachaduras, as superfícies desgastadas e a presença da vegetação também fazem parte da história atual do lugar.

Ao mesmo tempo, abandono não é sinônimo de autenticidade.

Permitir que uma estrutura desapareça por falta de cuidado não significa preservar sua verdade histórica.

Significa apenas aceitar sua perda.

O desafio está no equilíbrio.

Conservar a materialidade.

Garantir segurança.

Produzir conhecimento.

Interpretar o lugar para o público.

Respeitar a paisagem.

E manter visível a passagem do tempo.


Patrimônio não é apenas aquilo que herdamos

A palavra patrimônio traz consigo uma ideia de herança.

Mas toda herança exige uma decisão.

Podemos cuidar dela.

Podemos transformá-la.

Podemos esquecê-la.

O Forte do Leme chegou ao presente porque parte de suas estruturas resistiu fisicamente.

Isso não significa que sua memória esteja garantida.

Uma construção pode permanecer de pé e, ainda assim, perder seu significado.

Quando ninguém sabe para que serviam os trilhos, eles se tornam apenas linhas no chão.

Quando a origem dos canhões deixa de ser investigada, uma controvérsia histórica pode se transformar em lenda repetida sem cuidado.

Quando os túneis perdem sua relação com o quartel e os poços de artilharia, tornam-se apenas passagens escuras.

Preservar patrimônio também significa preservar relações.

Entre objeto e função.

Entre arquitetura e território.

Entre documento e interpretação.

Entre memória local e história mais ampla.

É por isso que fotografias, vídeos, mapas, relatos e pesquisas possuem valor.

Eles não substituem o lugar.

Mas ajudam a impedir que o lugar permaneça mudo.

Foto Forte do Leme em Angra dos Reis: história e ruínas - Imagem 6

A fotografia como manifesto histórico

Habitar o instante diante das ruínas

A expressão Habitar o Instante pode parecer distante de uma antiga fortificação militar.

Mas talvez poucas paisagens revelem tão claramente o que ela significa.

Habitar o instante não é ignorar o passado.

É perceber o modo como ele continua agindo no presente.

Diante do Forte do Leme, diferentes tempos ocupam o mesmo espaço.

O tempo da construção.

O tempo da estratégia militar.

O tempo das pessoas que trabalharam ali.

O tempo do abandono.

O tempo da ferrugem.

O tempo das raízes.

O tempo de quem chega hoje com uma câmera e tenta compreender aquilo que vê.

Fotografar é permanecer por alguns segundos diante dessa sobreposição.

É recusar o olhar automático.

É perguntar antes de apertar o botão:

O que existe realmente diante de mim?

O que esta superfície carrega?

O que está desaparecendo?

O que merece ser lembrado?

Uma fotografia consciente não começa na câmera.

Começa na atenção.


O que permanece quando a função desaparece?

O Forte do Leme perdeu sua função militar.

Mas isso não o tornou vazio.

A perda da função abriu espaço para outras leituras.

Hoje, o conjunto pode ser compreendido como patrimônio histórico, paisagem cultural, documento arquitetônico, objeto de pesquisa, espaço de educação e tema de criação artística.

Aquilo que foi construído para vigiar pode agora nos ensinar a observar.

Aquilo que foi criado para reagir à ameaça pode agora produzir reflexão.

Aquilo que representava domínio técnico aparece integrado à vegetação, lembrando que nenhuma obra humana existe fora do tempo.

Talvez essa seja a imagem mais importante que trouxe comigo.

Não a força do canhão.

Não a espessura do muro.

Não a escuridão do túnel.

Mas a permanência imperfeita de tudo isso.

O Forte do Leme não chegou intacto ao presente.

Chegou transformado.

E é justamente essa transformação que o torna capaz de falar conosco.


Perguntas frequentes sobre o Forte do Leme

Onde fica o Forte do Leme?

O Forte do Leme fica na região da Ponta Leste, em Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro. O conjunto está próximo ao Terminal Petrolífero da Baía da Ilha Grande e ao monumento dedicado aos mortos do encouraçado Aquidabã.

O que existe nas ruínas do Forte do Leme?

O conjunto possui dois poços circulares de artilharia, túneis conectados ao antigo quartel, trilhos utilizados no transporte de munição e dois grandes canhões de 234 milímetros.

Quem construiu o Forte do Leme?

A construção é atribuída ao engenheiro militar Capitão Rosalvo Mariano da Silva. As fontes disponíveis, entretanto, mantêm algumas questões abertas sobre a origem institucional do projeto.

Qual é a origem dos canhões?

Os canhões foram fabricados em 1901 pela Armstrong Whitworth. Sua origem naval é controversa: uma interpretação os associa ao encouraçado Riachuelo; outra considera a possibilidade de terem pertencido ao Aquidabã.

O Forte do Leme virou parque?

Em julho de 2025 foi formalizada a criação de uma área protegida vinculada ao Forte do Leme. A denominação usada na comunicação pública é Parque Municipal Forte do Leme, enquanto o decreto utiliza Parque Urbano Forte do Leme. A implantação plena ainda envolve etapas de planejamento, regularização e infraestrutura.

Existe um álbum fotográfico do Forte do Leme?

Sim. Produzi um álbum autoral dedicado às ruínas, aos túneis, aos canhões, à vegetação e à paisagem costeira do Forte do Leme.

Existe um documentário sobre o local?

Sim. O projeto também inclui um documentário no qual Missilene e eu percorremos o espaço, reunindo imagens, informações históricas e as impressões vividas durante a expedição.


Algumas paisagens não pedem pressa. Pedem presença.

O Forte do Leme me fez pensar sobre aquilo que permanece quando uma construção perde sua função.

Fez-me pensar sobre a diferença entre abandono e memória.

Sobre a natureza avançando sem pressa.

Sobre as nossas tentativas de permanência.

E sobre o papel da fotografia diante de tudo aquilo que o tempo inevitavelmente transforma.

É sobre encontros como esse que escrevo em Habitar o Instante.

Todos os domingos, às 19h, envio uma nova carta sobre fotografia, arte, paisagem, processo criativo, expedições e consciência.

Não apenas para falar sobre câmeras.

Mas para aprender a ver antes de fotografar.

Para reconhecer que toda imagem começa muito antes do disparo.

Começa no modo como escolhemos estar diante do mundo.

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Tags: Forte do Leme Angra dos Reis ruínas históricas patrimônio histórico fotografia de ruínas fotografia documental história da arte paisagem cultural Ponta Leste canhões Armstrong Whitworth Habitar o Instante
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