Deserto do Atacama: Silêncio e Estrelas
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Há lugares que nos colocam à prova antes mesmo do primeiro clique. O Deserto do Atacama é um deles. Não é apenas um destino; é um exercício de presença. Aqui, o vento fala baixo, a luz fala alto e o silêncio é tão denso que parece ter textura. À noite, as estrelas não “aparecem”: ocupam o céu. A imensidão é tanta que a câmera vira pretexto para algo mais profundo — entender por que escolhi fotografar e o que estou disposto a enfrentar em nome de um bom trabalho.
Cheguei ao Atacama pela promessa de um céu sem ruído e pela vontade de me medir com a altitude, o frio e a fadiga. Saí de lá com outra convicção: as imagens que mais valem a pena nascem do encontro entre técnica, persistência e respeito pela natureza.
Entre o silêncio e as estrelas
Durante o dia, o deserto é geologia em alto volume: salares, lagoas, cordilheiras e vulcões recortando o horizonte. À noite, tudo se recalibra. O tempo muda de ritmo. O ar esfria rápido. A Via Láctea atravessa a abóbada como se tivesse sido ensaiada para aquele momento.
É impossível não sentir que estamos pequenos diante de algo muito maior. E é justamente essa sensação que tento levar para as fotos. A técnica organiza. O olhar interpreta. Mas é a experiência — o frio cortando o rosto, a respiração curta, o ranger do cascalho sob as botas — que dá peso à imagem.

Astrofotografia em altitude: a verdade por trás das fotos bonitas
Quase todo mundo vê a foto final e pensa: “Que céu!”. Poucos imaginam o que aconteceu antes, durante e depois do clique. Altitude, frio, vento e ar extremamente seco são adversários que exigem preparo.
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Altitude: acima dos 4.000 m, o corpo desacelera. A cabeça pesa, a respiração encurta, cada passo pede negociação.
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Frio: as temperaturas negativas chegam cedo à noite. Aquilo que parecia suportável ao pôr do sol vira desafio em minutos.
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Vento: por vezes imprevisível, sacode tripés, levanta poeira fina e cobra mais disciplina na hora de compor.
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Ar seco: desidrata rápido, racha lábios, cansa sem aviso. Afeta até o equipamento — poeira e estática pedem atenção redobrada.
Não conto isso para criar drama, mas para registrar a realidade: fotografar no Atacama é também gerenciar o corpo e o equipamento.
Monjes de la Pacana: catedral de pedra a ~4.800 m
Os Monjes de la Pacana são esculturas naturais que guardam o altiplano como sentinelas silenciosas. À noite, viram silhuetas precisas contra a Via Láctea. É uma das cenas mais fotogênicas do deserto — e uma das mais exigentes.
A ~4.800 metros de altitude, tudo fica mais lento: montar tripé, ajustar a cabeça esférica, vestir e tirar luvas, trocar lentes, decidir o enquadramento. Até pensar leva mais tempo. Ao mesmo tempo, a cena compensa: a rocha monumental, a faixa brilhante da galáxia, a sensação de que o mundo parou por alguns segundos para você compor.
Como encaro essa sessão:
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Chegada com luz: sempre chego antes do pôr do sol. Caminho devagar, estudo ângulos possíveis, escolho onde a rocha vai “conversar” com o céu. Deixo equipamentos prontos — no frio, qualquer minuto perdido pesa.
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Camadas de roupa: funciona como dial de exposição do corpo. Ajusto conforme o vento. Gorro, gola, luvas com abertura nos dedos. O objetivo é manter a mobilidade sem perder calor.
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Tripé plantado: abro as pernas ao máximo e, se o vento pede, rebaixo a altura para aumentar estabilidade. Prendo a mochila no gancho central.
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Baterias quentes: as guardo no bolso interno da jaqueta. Revezar é essencial — no frio, a carga “desaparece” e reaparece quando aquecida.
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Luz vermelha: lanterna frontal com modo vermelho para preservar a adaptação noturna. Evito varrer a cena com luz branca — respeito o lugar e minha própria visão.
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Respiração e ritmo: com altitude, fazer tudo correndo é a receita para passar mal. Entre um ajuste e outro, paro, respiro, olho o céu. A imagem melhora quando o corpo acompanha o ambiente.
A composição nos Monjes é um diálogo entre sólido e infinito. Eu busco linhas simples: a massa da rocha ancorando o primeiro plano e a Via Láctea atravessando o fundo com espaço para respirar. Menos informação, mais intenção. É um lugar que pede silêncio — também na estética.


Frio, dedos e decisões: quando o corpo influencia a foto
Há cliques que não saem por falta de força na ponta dos dedos. O frio rouba precisão. Por isso, aprendi a decidir mais cedo: definir enquadramentos base e percorrer pequenas variações, em vez de “inventar moda” quando o corpo já está pedindo abrigo. A disciplina criativa é uma forma de respeito — comigo, com a equipe (quando há) e com a segurança.
Um hábito que adotei: cronometrar pausas reais. Cinco minutos dentro do carro para aquecer, um gole de chá quente, alongar as mãos, checar o corpo. Voltar melhor rende mais do que insistir num estado ruim.
O que a câmera não mostra: cansaço, sede e o peso da mochila
Carregar dois corpos de câmera, três lentes, tripé robusto, filtros, headlamp, água, agasalhos e primeiros socorros a quase 5.000 m significa que cada passo custa. E custa mais ainda quando a noite avança e o corpo, naturalmente, quer dormir.
A câmera não registra isso; eu registro em mim. E é nesse registro invisível que a fotografia ganha densidade. Parei de romantizar o perrengue, mas aprendi a reconhecer o valor dele: quando a foto exige algo de mim, eu devolvo algo de volta para a foto. E ela agradece.

Lascar: o trekking de altitude onde a fotografia pesa diferente
O Vulcão Lascar é um nome que carrega vento, cinza e história. É um vulcão ativo — isso por si só pede respeito, planejamento e acompanhamento local atualizado. O trekking ao cume é um capítulo à parte. Não é a trilha mais longa do mundo, mas é uma das que faz o corpo negociar o tempo todo. A inclinação, a altitude e o terreno de cascalho solto somam carga em cada decisão.
A altitude aqui não é um número: é uma condição. O coração acelera, o passo encurta, o ritmo vira um mantra: lento é suave, suave é rápido. Eu ajusto as expectativas antes de começar — não vou “bater tempo”, vou chegar inteiro para fotografar.
O caminho
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Aclimatação: não subo o Lascar “a seco”. Passo dias anteriores acima de 3.500–4.000 m, durmo bem, hidrato mais do que imagino precisar, aumento ingestão de sais e escuto sinais do corpo.
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Terreno: cascalho solto, trechos de areia vulcânica, zigue-zagues curtos. Bastões ajudam a economizar joelhos e dão ritmo.
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Clima: vento muda cenário. Camada corta-vento não é acessório; é essencial. Protetor solar e óculos são itens de sobrevivência na luz alta do altiplano.
Chegar ao cume e fotografar a cratera
No topo, o tempo corre diferente de novo — não dá para ficar muito. Há ventos fortes, enxofre no ar, bordas expostas e poeira que tenta invadir tudo. A palavra chave é foco:
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Segurança primeiro: distância da borda, atenção à direção do vento, máscara leve se necessário, permanência curta.
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Equipamento protegido: capas, filtros protetores, troca de lente evitada. Sensor limpo e mente limpa.
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Composição objetiva: a cratera é imensa; escolher o recorte que conta a história (textura das paredes, fumarolas, linhas criadas pela própria geologia).
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Luz: no alto, a luz “bate” diferente — dura, refletores naturais em cinzas e amarelos sulfurosos. Trabalho com sombras como desenho, abraço o contraste em vez de lutar com ele.
Fotografar a cratera do Lascar não é “clicar um cartão-postal”. É negociar com o tempo e com o vento para trazer de volta algo que faça jus ao que os olhos viram e o corpo sentiu.

Técnica que respeita o lugar
Não vou abrir “receitas” aqui — guardo os detalhes finos para um ambiente próprio de estudo —, mas compartilho princípios que sempre levo comigo:
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Simplicidade intencional: uma boa foto de paisagem nasce mais de decisões claras do que de funções obscuras.
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Estabilidade antes de tudo: base sólida, tripé bem plantado, corpo em posição confortável. Clareza mental ajuda mais do que 1% a mais de nitidez.
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Ritmo: em altitude, o ritmo do corpo dita o ritmo do set. Se eu respeito o meu limite, vejo melhor.
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Narrativa: cada quadro precisa “dizer” algo — grandeza, silêncio, contraste, textura, caminho. Sem isso, é uma foto correta. Com isso, é história.
O que aprendi no frio (e continuo aprendendo)
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Baterias vivem no bolso interno. Rotaciono sem dó.
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Luvas de duas camadas funcionam: finas por baixo, corta-vento por cima (com dedos que abrem).
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Headlamp com vermelho preserva visão noturna e respeito ao ambiente.
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Tripé baixo no vento é menos “heroico” e mais eficaz.
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Água e sais não são luxo: previnem dor de cabeça, cansaço e decisões ruins.
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Plano B é sinal de maturidade: se o vento domina, mudo o quadro, não o ego.
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Pausas programadas preservam criatividade.
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Ouvido no guia e no céu: condições mudam; fotografar bem inclui saber voltar bem.
Por que fazemos isso?
Há perguntas que a gente não responde com palavras. Em alguns lugares, a resposta vem em forma de ar frio no rosto e estrelas tão nítidas que parecem produzir som. Eu fotografo para lembrar que estive aqui — e para que quem veja as fotos sinta um pouco do que eu senti.

O Atacama me ensinou que o caminho até a imagem é parte da imagem. A altitude nos Monjes de la Pacana, o trekking ao cume do Lascar, o vento, o pó, o silêncio… tudo isso entra em cada arquivo, como uma camada invisível de contexto. E é por isso que fotografia, para mim, continua sendo a arte de escrever com a alma.
Ética, segurança e respeito
Este é um ambiente frágil. Deixo o mínimo de pegadas possível, levo todo o lixo de volta, sigo orientações locais e não me aproximo de áreas sensíveis. No Lascar, observo atualizações sobre atividade vulcânica e nunca desconsidero a palavra de guias. Nenhuma foto vale um risco irresponsável.
Conclusão: o que levo e o que deixo
Voltei do Atacama com cartões cheios e, mais importante, com a sensação de que cada imagem carregava um pedaço honesto do que vivi. Nem todas as fotos nasceram fáceis — as melhores quase nunca nascem. Mas é justamente aí que a fotografia encontra propósito: entregar algo que faça sentido apesar do desconforto.
Se as paisagens do Atacama também falam com você, deixo um convite:
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Explore meu Portfólio e meus Álbuns no site — onde organizo as séries do deserto, dos vulcões e das noites de céu aberto.
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Acompanhe os bastidores no Instagram e no LinkedIn — onde compartilho processos, aprendizados e próximos passos dessa jornada.
Nos vemos na próxima madrugada fria, diante de mais um horizonte.
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